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#02
por Marco Gurgel
Samuel Augustus Maverick era um político e dono de terras que se estabeleceu no Texas no século XIX. Por volta de 1840, recebeu como pagamento de uma dívida um rebanho de cerca de 400 cabeças de gado. A versão que sobreviveu como lenda diz que Maverick simplesmente se recusava a marcar seus animais.
Os animais sem identificação começaram a ser conhecidos como "mavericks" e, depois da Guerra Civil, a palavra já era usada para definir qualquer bezerro sem marca. Com o tempo, escapou do universo das fazendas e entrou definitivamente na língua inglesa para descrever alguém independente, pouco disposto a seguir o grupo ou obedecer às convenções.
“O western nunca foi apenas um gênero cinematográfico. Durante boa parte do século XX funcionou como uma enorme máquina de construção de mitos.
Os animais sem identificação começaram a ser conhecidos como "mavericks" e, depois da Guerra Civil, a palavra já era usada para definir qualquer bezerro sem marca. Com o tempo, escapou do universo das fazendas e entrou definitivamente na língua inglesa para descrever alguém independente, pouco disposto a seguir o grupo ou obedecer às convenções.
“O western nunca foi apenas um gênero cinematográfico. Durante boa parte do século XX funcionou como uma enorme máquina de construção de mitos.Hollywood transformou o cowboy em símbolo universal de liberdade, força e autonomia.”
Hollywood transformou o cowboy em símbolo universal de liberdade, força e autonomia.
Nos anos 1960, quando o western clássico já dava sinais de desgaste, europeus pegaram aquele mito tão profundamente americano e decidiram reinventá-lo. Entre 1962 e 1980, quase 500 westerns italianos chegaram aos cinemas. Muitos eram filmados na Espanha, em paisagens que podiam passar perfeitamente pelo Arizona, Texas ou México. Nos Estados Unidos, aqueles filmes passaram a ser chamados de spaghetti westerns, muitas vezes de maneira depreciativa. Filmes de cowboy feitos por italianos pareciam, para parte da crítica de lá, quase uma imitação barata.
Isso começou a mudar quando em 1964, Sergio Leone dirigiu A Fistful of Dollars e escalou Clint Eastwood, que ainda não era tão conhecido. Leone retirou do cowboy grande parte da moralidade do western clássico. Seu personagem ficou conhecido como o ‘Homem Sem Nome’. Falava pouco, observava muito e operava num mundo em que praticamente ninguém era completamente bom.
A trilha de Ennio Morricone combinava assobios, sinos, chicotes, guitarras elétricas e vozes. Com Leone e Morricone, a aventura de heróis ganha ambiguidade, violência, dinheiro, desejo e sobrevivência.
“A influência de Leone atravessou gerações. Quentin Tarantino considera The Good, the Bad and the Ugly, “o filme mais bem dirigido de todos os tempos”.
Não é difícil reconhecer essa herança no cinema de Tarantino: os silêncios longos, os closes extremos, a violência quase coreografada, a música como personagem e a tensão construída até o limite antes de explodir.
Visualmente, é da obra do icônico diretor que vem parte da cartela desta campanha. Os amarelos, vermelhos e azuis aturquesados colidem com os marrons, alaranjados e texturas envelhecidas que pertencem à memória do Velho Oeste. Uma saturação quase artificial atravessando um cenário gasto pela poeira.
Visualmente, é da obra do icônico diretor que vem parte da cartela desta campanha. Os amarelos, vermelhos e azuis aturquesados colidem com os marrons, alaranjados e texturas envelhecidas que pertencem à memória do Velho Oeste. Uma saturação quase artificial atravessando um cenário gasto pela poeira.
“Durante décadas, o faroeste foi provavelmente um dos gêneros mais masculinos do cinema.”
Aos homens cabiam o protagonismo, o cavalo, a arma, o conflito e o território. A mulher frequentemente ficava à margem dessas ações: a esposa que esperava, a professora que simbolizava a civilização, a donzela em perigo ou a mulher do saloon, sexualizada e disponível para entreter.
Em Calamity, Jane, Doris Day aparece de camurça, calça, chapéu e arma, ocupando fisicamente um espaço que o cinema identificava como masculino. O próprio filme ainda sente necessidade de conduzi-la depois a uma feminilidade mais convencional, mas a imagem permanece subversiva.
Em 1971, Brigitte Bardot e Claudia Cardinale, dois dos maiores símbolos sexuais do cinema europeu, apareceram juntas pela primeira e única vez no filme "Les Pétroleuses".
Bardot é Louise, a Frenchie King, que lidera um grupo de cinco irmãs fora da lei. Claudia Cardinale interpreta Maria Sarrazin, que vive com seus quatro irmãos e tem autoridade sobre a pequena cidade onde a história acontece.
O que é extraordinário não é apenas ver Bardot e Cardinale de calça, botas, chapéu e revólver. É entender o que movimenta a história.
O que é extraordinário não é apenas ver Bardot e Cardinale de calça, botas, chapéu e revólver. É entender o que movimenta a história.
“Elas não disputam o amor ou a atenção de um homem. Disputam propriedade, dinheiro, petróleo e poder.”
Considero particularmente o filme um marco justamente porque, lá em 1971, ele inverte a hierarquia tradicional do gênero. Os homens não desaparecem, mas deixam de ser o eixo da história. Os irmãos de Maria funcionam muitas vezes como alívio cômico, são comandados poe ela e se apaixonam pelas irmãs de Louise. O xerife tenta assumir controle, mas passa boa parte do filme sendo manobrado pelas duas.
No final, elas percebem que, pela primeira vez, haviam enfrentado alguém realmente a altura, tornam-se aliadas e partem juntas, liderando o grupo em direção ao horizonte.
No final, elas percebem que, pela primeira vez, haviam enfrentado alguém realmente a altura, tornam-se aliadas e partem juntas, liderando o grupo em direção ao horizonte.
Quando Lady Gaga e Beyoncé lançaram o clipe de Telephone, em 2010, o western já havia se misturado ao road movie, aos filmes de exploração e, principalmente, ao cinema de Quentin Tarantino. Gaga sai da prisão, Beyoncé a espera e as duas pegam a estrada como partners in crime. E a caminhonete amarela em que fogem não é uma réplica. É a própria Pussy Wagon de Kill Bill, emprestada por Tarantino para a gravação.
Uma das maiores reinvenções recentes do imaginário western foi feita pela própria Beyoncé com o álbum Cowboy Carter. Quando lançou em 2024, a operação cultural era muito maior do que simplesmente uma popstar fazendo country. Uma mulher preta do Texas recuperando a história do country e do cowboy, progressivamente embranquecida pela narrativa popular.
“Essa mistura de influências faz parte da construção da linguagem da TIG. Nossas referências nunca chegam puras. Cinema encontra música, moda encontra comportamento. O que nos interessa é entender por que determinadas referências permanecem na nossa memória e descobrir o que pode ser feito com elas.”
O look western é especialmente interessante para a moda porque quase todos os seus grandes símbolos nasceram da necessidade, sem nenhum glamour. A roupa precisava sobreviver ao trabalho, ao cavalo, ao calor e à poeira. O jeans moderno nasce em 1873, quando Levi Strauss e Jacob Davis patenteiam a aplicação de rebites de cobre nos pontos de tensão das calças de trabalho. Décadas depois, aquilo que havia sido solução para trabalhadores de minas, fazendas e ranchos já estava inseparavelmente ligado à imagem do cowboy.
A partir dos anos 1940 e principalmente nos anos 1950, Nudie Cohn fez da roupa western um espetáculo. Bordados enormes, cores impossíveis, aplicações, lamê, estrelas, flores, ferraduras e, sobretudo, rhinestones. Seus famosos Nudie suits vestiram Johnny Cash, Elvis Presley, Cher, Elton John e dezenas de outros artistas. O cowboy passava do rancho para o palco.
“O glamour acompanha essa roupa há décadas e nessa coleção, abraçamos essa ideia e estampamos motivos western sobre o paetê: uma espécie de cowboy extravaganza pop.”
Poucos designers entenderam tão bem a força desse imaginário quanto Ralph Lauren. No final dos anos 1970, ele converteu o Oeste em estilo de vida de luxo para a high society americana. Em 1978, a Polo Western levou denim, couro, camurça, grandes fivelas e códigos utilitários do Oeste para dentro do universo Ralph Lauren. Em 1981, a coleção Santa Fe aprofundaria ainda mais essa linguagem.
Ralph viajou pelo Oeste americano procurando peças que correspondessem à imagem que existia em sua cabeça e entendeu que o verdadeiro produto talvez não fosse uma camisa ou um casaco. Era a possibilidade de entrar naquela vida. Com ele, a fantasia de rodeio foi laçada para o mercado de luxo sem perder a poeira da origem.
Gianni Versace faria praticamente o movimento oposto em 1992. Em vez de sofisticar o cowboy pela elegância, colocou fogo nele. Sua coleção de inverno daquele ano, que ficaria conhecida como Miss S&M, misturava western e fetiche. Couro preto, harnesses, jeans de couro com franjas, correntes, metal e botas de cowboy de salto alto cobertas de tachas. Naomi Campbell e a geração de supermodels faziam da passarela algo entre saloon, sex club e show de rock. A coleção dividiu opiniões ao transformar códigos fetichistas em eveningwear deliberadamente glamoroso.
Essa energia aparece em uma das nossas peças favoritas desta coleção: a calça de tule estampada, com o cinto SEX em trompe-l'œil.
Nesta campanha, Linda Helena e Samile são Miss Maverick e Frenchie Gold: duas supermodels em papéis que o western durante décadas reservou aos homens. Elas têm atitude, território, vaidade, inteligência, força e objetivos próprios.
Elas carregam muito de tudo isso que guardamos no nosso HD interno e entram numa disputa que vocês podem conferir nos fashion films que produzimos para esta coleção.
Nesta campanha, Linda Helena e Samile são Miss Maverick e Frenchie Gold: duas supermodels em papéis que o western durante décadas reservou aos homens. Elas têm atitude, território, vaidade, inteligência, força e objetivos próprios.
Elas carregam muito de tudo isso que guardamos no nosso HD interno e entram numa disputa que vocês podem conferir nos fashion films que produzimos para esta coleção.
“Ao longo dos últimos anos, fomos percebendo cada vez mais que uma coleção pode ser uma história completa a ser contada.”
A moda é um dos territórios mais férteis para esse exercício, porque uma roupa sem uma narrativa parece incompleta. Ela traz consigo galáxias de associações. Nossa obsessão está em reorganizar esses códigos até que contem uma nova história que nos transportem para um espaço onde a realidade e os sonhos se misturam. To be continued ....
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#01
In Dogs We Trust
por Marco Gurgel
A humanidade cultiva um caso de amor com os cães. Nenhuma espécie do reino animal nos acompanha, comove, cura e desarma com tanta graça.
A história está repleta de mulheres cuja relação com seus cães acabou incorporada à própria imagem. Coco Chanel tinha em Gigot, seu dogue alemão, muito mais que um pet: um parceiro inseparável. Audrey Hepburn levava Mr. Famous, seu Yorkshire terrier, para sets de filmagem e chegou a colocá-lo na cestinha da bicicleta entre uma cena e outra. Lee Radziwill aparecia com Thomas, seu pug, até no Ritz.
A Rainha Elizabeth II construiu uma vida inteira ao redor de seus corgis, começando por Susan, que chegou a acompanhá-la na lua de mel. Gisele atravessou sua ascensão ao lado de Vida, sua Yorkie, que apareceu inclusive em editoriais de moda. E, na virada do milênio, Paris Hilton transformaria Tinkerbell em símbolo dos anos 2000, levando o pequeno Chihuahua embaixo do braço por tapetes vermelhos, lojas e noites de Los Angeles
A Rainha Elizabeth II construiu uma vida inteira ao redor de seus corgis, começando por Susan, que chegou a acompanhá-la na lua de mel. Gisele atravessou sua ascensão ao lado de Vida, sua Yorkie, que apareceu inclusive em editoriais de moda. E, na virada do milênio, Paris Hilton transformaria Tinkerbell em símbolo dos anos 2000, levando o pequeno Chihuahua embaixo do braço por tapetes vermelhos, lojas e noites de Los Angeles
“Na minha formação como stylist, aprendi que poucos elementos são capazes de sensibilizar tanto o olhar numa imagem de moda quanto um cachorro em cena.”
Um dos primeiros registros é de 1898, quando a Vogue americana pôs um collie na capa.
Para construir o imaginário da coleção deste mês, fomos a fundo nesse repertório. Helmut Newton, que gostava de mulheres fortes e as fotografava com cães à altura delas. Herb Ritts, que clicou Kate Moss com um dogue arlequim nos braços. E Slim Aarons, o fotógrafo que inventou a nossa ideia de glamour à beira da piscina e que achou que um poodle saindo do cabeleireiro em Deauville merecia virar história.
Nas estampas figurativas da coleção, poodles, dálmatas e dobermans são os verdadeiros protagonistas. Aparecem sozinhos ou comandando seus passeios, nunca como acessórios. Mais do que animais de estimação, pertencem àquele vocabulário de jet set: quase socialites, extensões do estilo, da casa e da vida de quem os acompanha.
Enquanto produzíamos nosso shooting, a Vogue americana lançou a terceira edição da Dogue: celebridades como Bad Bunny e Millie Bobby Brown emprestaram seus pets para uma série de capas. Há um porquê nesse zeitgeist, e arrisco que seja mais profundo que a fofura e a comoção que a imagem de um cachorro provoca.
“Depois de anos de beleza corrigida, filtrada, artificial, o animal carrega justamente aquilo de que estamos carentes: imprevisibilidade, espontaneidade, verdade.”
É desse repertório que vêm as linhas das casas mid-century, a exuberância do Miami Modern, o design Déco e os letreiros camp. Na cartela fria desta coleção, o pink afuchsiado é destaque entre nuances de lilás, roxo e azul, numa sensação neon.
Nos anos 90, Miami soma outra camada: uma atitude hedonista. Em 1992, Gianni Versace comprou a Casa Casuarina, em Ocean Drive, e se tornou uma das figuras centrais da nova South Beach. A mansão virou ponto de encontro de modelos, artistas, fotógrafos, editores e celebridades.
O Miami Subs, lanchonete aberta a madrugada inteira, vendia Dom Pérignon no cardápio, em combo com um balde de chicken wings. Diz a lenda que Madonna parava no drive-thru à meia-noite e a garrafa entrava pelo teto solar da limusine.
Nos anos 90, Miami soma outra camada: uma atitude hedonista. Em 1992, Gianni Versace comprou a Casa Casuarina, em Ocean Drive, e se tornou uma das figuras centrais da nova South Beach. A mansão virou ponto de encontro de modelos, artistas, fotógrafos, editores e celebridades.
O Miami Subs, lanchonete aberta a madrugada inteira, vendia Dom Pérignon no cardápio, em combo com um balde de chicken wings. Diz a lenda que Madonna parava no drive-thru à meia-noite e a garrafa entrava pelo teto solar da limusine.
O espírito daquele tempo foi definido pela liberdade, pela irreverência, pelo prazer de se mostrar e pelos excessos praticados em público, sem ironia e sem culpa. Moda e lifestyle não se descolavam.
“É esse sentimento que queremos revisitar. Uma atitude unapologetic e sensual, em que chamar atenção não significa falta de sofisticação. Cor e extravagância convivendo naturalmente, sem precisar de justificativa.”
Da mesma cena, trazemos os minivestidos baby doll, que atravessaram a noite daquela década como uniforme das it girls. E foi Gianni quem fez deles a tradução exata de uma feminilidade que podia ser doce, sexy e exuberante ao mesmo tempo.
Para personificar essa mulher, olhamos para as supermodelos dos anos 90. Não apenas pelo mito que construíram, mas pela maneira como sintetizavam aquela época: independentes, ultra glamourosas, sexy, seguras do próprio impacto e completamente à vontade naquela opulência.
A inspo para a beauty da campanha vem de um visual icônico de Naomi Campbell: o liso médio escovado com as pontas viradas para fora, a pálpebra prateada bem marcada e a boca noventista, de contorno escuro e centro claro, num rosa acinzentado.
A inspo para a beauty da campanha vem de um visual icônico de Naomi Campbell: o liso médio escovado com as pontas viradas para fora, a pálpebra prateada bem marcada e a boca noventista, de contorno escuro e centro claro, num rosa acinzentado.